Hot Posts

6/recent/ticker-posts

"BRANQUEAMENTO DA HISTÓRIA? SOBREVIVENTES DO 27 DE MAIO DENUNCIAM LISTA DE MORTOS COM PESSOAS VIVAS E ACUSAM CIVICOP DE FALSIFICAÇÃO"

"Mortos que Afinal Estão Vivos



Luanda - Novas denúncias levantam sérias dúvidas sobre a credibilidade do processo de identificação das vítimas dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977. Sobreviventes da repressão política consideram "falsa" a lista de mais de 600 ossadas apresentada pela Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos (Civicop), após encontrarem os seus próprios nomes entre os supostos mortos.

A revelação foi feita por Joaquim Sequeira, membro do Grupo de Sobreviventes integrado na Plataforma 27 de Maio, que afirma ter ficado "estupefacto" ao descobrir que o seu nome consta do inventário de restos mortais alegadamente encontrados no Cemitério do 14, em Luanda.

"Fiquei estupefacto quando soube da lista das ossadas encontradas no Cemitério do 14 e o meu nome está na lista. Devo ter feito uma viagem subterrânea, por acaso agora até Portugal", declarou Sequeira à agência Lusa, numa crítica irónica ao processo conduzido pelas autoridades.

Segundo o sobrevivente, nunca foi contactado pela Civicop para qualquer procedimento de validação ou esclarecimento relacionado com a inclusão do seu nome na lista.

A denúncia ganha contornos ainda mais graves quando Sequeira afirma ter identificado pelo menos 13 pessoas vivas entre os nomes constantes do inventário. Além disso, diz ter detetado 83 indivíduos que faleceram noutras províncias do país, levantando questões sobre a origem e a autenticidade dos dados utilizados para compor a lista.

Para o membro da Plataforma 27 de Maio, o documento apresentado não oferece qualquer garantia de rigor científico ou histórico.

"É tudo falso", acusou, classificando todo o processo como "escandaloso" e "horrível".

As declarações reacendem a polémica em torno da gestão dos trabalhos de exumação, identificação e entrega dos restos mortais às famílias das vítimas dos conflitos políticos em Angola. Diversas organizações de familiares e sobreviventes têm vindo a questionar a transparência dos procedimentos, bem como a ausência de auditorias independentes ao processo.

Sequeira considera que a atuação da Civicop representa um profundo desrespeito para com os sobreviventes e para com as famílias que, há décadas, aguardam respostas sobre o paradeiro dos seus entes queridos.

As acusações surgem numa altura em que o Estado angolano procura encerrar um dos capítulos mais dolorosos da sua história contemporânea. Contudo, para muitos sobreviventes, a reconciliação nacional só será possível através da verdade, da transparência e da responsabilização.

Enquanto não forem esclarecidas as alegadas irregularidades, as denúncias levantam uma questão inquietante: estará o país perante um processo de reconciliação genuíno ou perante uma tentativa de "branqueamento" da memória histórica de uma das maiores tragédias políticas da Angola independente?

Enviar um comentário

0 Comentários