Governadores passam, promessas acumulam-se e o povo continua abandonado entre a pobreza, exploração e falta de dignidade O Governo Provincial de Benguela voltou a exibir mais uma cerimónia de inauguração na Caóta, município dos Navegantes. Entre discursos optimistas, corte de fitas e fotografias oficiais, foram entregues três equipamentos sociais à população.
Durante o acto, o governador provincial, Manuel Nunes Júnior, justificou a intervenção afirmando que o Executivo decidiu prestar uma atenção especial ao bairro devido às suas características sociais e aos inúmeros problemas enfrentados pela comunidade.
“Demos uma atenção especial a este bairro, tendo em conta as suas características. Em parceria com o FAS, estruturámos um programa global para fazer face aos problemas sociais existentes”, declarou o governador.
O corte da fita coube ao próprio governador, na presença do Director-Geral do FAS – Instituto de Desenvolvimento Local, Belarmino Jelembi, do administrador municipal dos Navegantes, João Tomás, e outras entidades locais.
Contudo, a grande questão que se impõe é: serão três equipamentos sociais suficientes para resolver décadas de abandono?
A própria administração provincial reconheceu recentemente que a Caóta vive uma profunda crise social, institucional e económica. Segundo declarações públicas do governador Manuel Nunes Júnior, a localidade enfrenta extrema pobreza, desemprego, falta de acesso a serviços básicos de saúde, educação, saneamento e segurança pública. As autoridades admitiram ainda a existência de denúncias nacionais e internacionais relacionadas com alegados casos de exploração sexual de menores na comunidade.
A realidade da Caóta não surgiu hoje.
Durante anos, vários governadores passaram por Benguela prometendo desenvolvimento, inclusão social e melhoria das condições de vida das populações mais vulneráveis. No entanto, a Caóta permaneceu esquecida, transformando-se num dos maiores símbolos do fracasso das políticas públicas de combate à pobreza na província.
Enquanto milhões foram investidos em projectos, eventos, inaugurações e discursos políticos, milhares de famílias da Caóta continuaram sem água potável, sem saneamento adequado, sem emprego digno e sem perspectivas reais de mobilidade social.
A inauguração de equipamentos sociais é positiva e merece reconhecimento. Mas a população espera muito mais do que actos protocolares.
O povo da Caóta precisa de escolas em condições, hospitais funcionais, programas de emprego para os jovens, protecção efectiva das crianças, combate à exploração sexual, saneamento básico, acesso à água e uma presença permanente do Estado.
A verdade incómoda é que a pobreza extrema da Caóta não é apenas consequência da falta de recursos. É também resultado de anos de negligência política, ausência de fiscalização e falta de compromisso de sucessivas administrações provinciais.
O desafio para Manuel Nunes Júnior não é apenas inaugurar infra-estruturas. O verdadeiro teste será demonstrar que a Caóta deixará de ser lembrada apenas quando há câmaras de televisão, visitas oficiais ou necessidade de produzir relatórios para apresentar resultados.
A população está cansada de promessas.
A Caóta não precisa apenas de fitas para cortar.
Precisa de dignidade para viver.
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